sexta-feira, outubro 06, 2006


O Bregão, quase no limite da cidade alta, seria só mais um edifício na velha geografia de Salvador, não fosse pelo apelido chulo que o caracteriza segundo critérios aparentes da cultura popular baiana. Década de setenta. Além de mim Elmo, Paulista, Terezinha, Gutemberg, Jandira... Pelos dez andares, mais uns três mil anônimos. Ali se sobrevive. Tem elevadores, fiação elétrica, telefônica, tem água encanada, torneiras, lâmpadas e somente as escadas funcionam.

Do térreo ao oitavo o trânsito suarento em maratonas verticais sem premiações e sem vento. Estruturas de uma história que abriga sonhos e os remete contra as paredes calejando-os em baques e bordoadas. Mas, um edifício. Faz-se em cada lance de escada, em cada andar, em cada apartamento, em cada cômodo o que cada um se admita. Não se sabe quem mora, trabalha, visita, espreita, vende ou pede ilusões. Funciona como estação de pernoite ou estacionamento de horista, diarista ou mensalista que manobre escada acima e escada abaixo.

Dia após dia isso. Um edifício que funciona, de alguma forma, como tal, mas cuja função de cada espaço interno não condiz com os códigos de coerência socialmente aceitáveis. O colecionador de chaveiros ouve Benito Di Paula às 4 da matina, no 2º, e o colchão no chão do 8º suporta a ira do acordado cuspindo fogo. Jandira bem que pôde exibir seu corpo em pele quando acordou no meio da tarde, boca seca, olhos de neiteadentro, toda suada cheirando a vagão de subúrbio.

Jogam-se búzios, dá-se receita, faz-se contabilidade, vende-se artesanato, cosméticos, cannabis, pão caseiro, acarajé, abará, pamonha, faz-se fretes por água e terra, faz-se jardins, presta-se consultoria no ramo de negócios em geral, compra-se móveis usados, moedas antigas, lanternas, azulejos, ouro, diamante, aceitam-se encomendas de maniçoba, sarapatel, colchas de retalho, cortinas de sisal, blusas e toalhas de crochê. Tudo sob o estigma do Bregão.

No apartamento 810 a noite feita de histórias de Cruz das Almas, de Feira de Santana, de Campos Novos, de Camaçari, de João pessoa, de Curitiba, de Ilhéus, de São Paulo e, quando Boi namora, de Bom Jesus dos Passos. Estruturas bio-histórico-culturais cooperam em função da preservação de um estigma que espreita cada passo, cada gesto. A fama do Bregão percorre as igrejas, os terreiros, os botecos, as praias; desce pelo Elevador Lacerda, por Planos Inclinados e chaga além do Bom Fim; toma rumos opostos, senta nas praças, percorre becos, penetra paredes e poros.

A calcinha, de um amarelo-cuscuz, contrasta com a pele ainda marcada pelas dobras do lençol amarrotado, mas quase não faz sentido pelo tamanho e a luz vigorosa da tarde. Não fosse por Jandira o silêncio vespertino só cortado pela televisão ligada por ela ainda com olhos entreabertos. Mas, por ela, tudo pode esperar e não falta assunto até que a noite se vá pela metade. O dia seguinte sempre é mais da metade do seguinte.

É divertido morar no Bregão. Mas chaga um momento em que a fama se liquefaz e passa a percorrer veias, vasos, a irrigar tecidos e a opilar dutos de uma estrutura que não lhe pertence, de espaços que como Bregão o edifício desconhece. O momento de adeus tem cor de baunilha, cheira a formicida, a piche e costuma usar disfarce de betacaroteno, de poema de Quintana, de milho verde assado, de mãos delicadas sobre a pele.

Roberto Bittencourt

3 comentários:

Anônimo disse...

Caro escritor

à nível de proposta de escrita acho que seu trabalho enquanto filósofo é válido.
Se eu fosse de maior que nem minhas colega de Brasília eu ia de apé até em Curitiba pra ti dar um abrasso tipo tamanduá.

Amei seu Bregão e sinto-me uma espécie de moradora dele.
Um grande abraço e obrigada pela deliciosa leitura.
Celina ( é....aquela mesma)

Anônimo disse...

Caro escritor

à nível de proposta de escrita acho que seu trabalho enquanto filósofo é válido.
Se eu fosse de maior que nem minhas colega de Brasília eu ia de apé até em Curitiba pra ti dar um abrasso tipo tamanduá.

Amei seu Bregão e sinto-me uma espécie de moradora dele.
Um grande abraço e obrigada pela deliciosa leitura.
Celina ( é....aquela mesma)

Roberto Bittencourt disse...

Celina!
Sê bem vinda!
Sou eu quem agradece emocionado tua presença aqui. Carinho.